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   terça-feira, 22 de julho de 2014
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Um resumo histórico da relojoaria americana
Por Wilson Gomes de Oliveira
Nos dias de hoje, quando se faz referência a relógios finos, a palavra "suíços" vem logo ao pensamento. Mas isto nem sempre foi assim: tanto os ingleses como os americanos já foram considerados líderes nesse campo. O desenvolvimento da indústria relojoeira americana foi um dos símbolos da emergência dos Estados Unidos, de um país agrícola para uma potência industrial.
 
Relógios anteriores a 1850 - A supremacia dos ingleses e suíços
Apesar dos ingleses não terem projeção na relojoaria atualmente, desde cerca de 1650 até meados de 1850 eles fabricavam, com a mais alta qualidade, os mais precisos relógios do mundo. A tendência dos relógios ingleses era de serem grandes e não muito elegantes, mas o estilo simples combinava com a "ética puritana" da Inglaterra. Os suíços, por outro lado, investiram na elegância que era desejada pelo resto da Europa e do mundo.
Eles fabricavam uma extensa e variada linha de relógios, desde os mais baratos até os complicados de alta qualidade, alguns deles tão precisos quanto os ingleses. Esses dois grandes centros fabricavam relógios em pequenas quantidades, por pequenas companhias e com muito trabalho manual; ambos vendiam os seus relógios mais baratos para o mercado americano.
 
1850 - A fundação da Indústria Relojoeira Americana
Iniciando em cerca de 1850, os americanos foram os pioneiros em usar máquinas automatizadas para a produção em massa de relógios de alta qualidade, com peças intercambiáveis. Esse se tornou conhecido como o Sistema de Manufatura Americano (American System of Manufacturing). Pelos anos de 1860/1870, as companhias americanas provaram que esse sistema poderia fabricar relógios tão bons quanto os melhores relógios que eram feitos à mão. Era também possível fabricar relógios mais baratos que os feitos manualmente.
 
1870 - Companhias relojoeiras americanas em estado de arte

Movimento de um relógio Hampden
Em meados de 1870, os suíços notaram uma significativa queda nas vendas para o mercado americano. Para descobrir o porquê, eles enviaram representantes para a Exposição do Centenário, em 1876, em Filadélfia. Lá, os suíços viram as máquinas automatizadas da Waltham fazendo parafusos e ficaram impressionados com elas. Um pedaço de metal era colocado em uma das extremidades da máquina e uma quantidade (em fluxo constante) de parafusos, perfeitamente acabados, do tamanho de cabeças de alfinete, saía na outra extremidade. Parafusos, com qualidades similar, simplesmente não poderiam ser feitos por máquinas de controle manual como as que os suíços usavam.
Mas não era somente a fabricação de parafusos que os americanos haviam aperfeiçoado. Praticamente havia uma máquina desenhada especificamente para fabricar cada peça, que poderia ser produzida mais rápido, com maior precisão e com menos trabalho que os suíços ou ingleses podiam fazer.
No começo dos anos 1880, os suíços e ingleses estavam praticamente fora do mercado americano. Os ingleses simplesmente decretaram uma espécie de falência e se direcionaram mais aos cronômetros de alta qualidade, que eram fabricados para a frota marítma do grande Império Britânico. Eles também deixaram de fabricar peças baratas que poderiam ser vendidas nas casas. Os ingleses reagiram a ambas as indústrias crescentes (suíça e americana) pressionando o Parlamento para impor altas tarifas e restringir importações. Os suíços, por outro lado, reagiram adaptando-se ao novo mercado.
 
1880 - A resposta suíça
Antes de 1880, a indústria suíça de relógios era situada em casas de campo, em pequenas cidades onde a maioria das peças e caixas de relógios eram feitas. Essas peças seriam montadas depois em pequenas lojas (relojoarias). Cada relógio tinha que ser ajustado à mão por causa da diferença entre as peças. A diferença em uma só peça poderia requerer que outras peças que se encaixassem naquela tivessem que ser adaptadas.
Depois de ver o Sistema Americano de Manufatura, os suíços se reorganizaram em fábricas centralizadas, com razoável automatização. Essas fábricas eram muito pequenas comparadas com as companhias americanas e não tão automatizadas. Contudo, eles fizeram algumas melhorias com as quais eles puderam fazer réplicas de relógios americanos ("falsificações suíças") e evitaram perder o restante dos outros mercados.
Um inconveniente para o Sistema de Manufatura Americano é que cada peça requeria uma máquina para fabricá-la, então relógios complicados como repetidores (minute repeaters), cronógrafos e relógios "finos", não eram práticos de serem fabricados. Algumas companhias americanas "improvisavam" e faziam esses relógios usando meios "semi-automatizados" similares aos suíços, mas a quantidade era limitada e, em meados de 1890, a maioria das companhias americanas parou de fabricá-los. Os relógios americanos eram de alta qualidade, mas ao mesmo tempo simples.
 
1900: A força dos mercados competitivos
Embora várias companhias americanas tenham se interessado pelo mercado internacional, entre 1870 e 1880, a maioria delas se contentou com os mercados americano e canadense. Os americanos, em geral, ficavam tranqüilamente "isolados", no mercado local; nele, marcas como a Elgin e a Waltham geralmente vendiam tudo o que as suas fábricas produziam.
Fábrica da Elgin
Em meados de 1900, a tecnologia suíça já estava bastante equiparada à dos americanos. Uma das grandes diferenças era que os suíços tinham muitas companhias envolvidas na fabricação de um relógio. Haviam várias companhias que fabricavam somente bases de mecanismos (ébauches), e estes mecanismos seriam vendidos a outras companhias para serem finalizados (acabamento) e vendidos. Outras companhias se especializariam em módulos para cronógrafos (chronograph attachments), mostradores, molas da corda e ferramentas. Com várias companhias fazendo cada parte (peças) da manufatura, como um todo, os suíços já tinham capacidade para produzir qualquer coisa, desde relógios baratos até relógios de mais alta qualidade.
No mercado americano, em contraste, havia efetivamente um duopólio das marcas Waltham e Elgin, com várias fábricas menores tentando sobreviver em nichos desse mercado. Todas essas companhias produziam tudo, menos as caixas dos relógios. A fábrica que produzia tudo tinha certas vantagens, tais como a facilidade na coordenação, mas até mesmo uma fábrica que fazia tudo desde rubis, mostradores, vendas e promoções, tinha seus inconvenientes. Se os suíços tivessem problemas com a qualidade ou quantidade, por exemplo, de mostradores, eles simplesmente trocavam de fornecedor; se os americanos não pudessem fabricar mostradores, eles "emperravam". Uma nova companhia suíça poderia entrar no mercado facilmente, mas o "truste" americano fazia com que os distribuidores e joalheiros tivessem receio de aceitar uma nova de marca de relógios e correr o risco de perder seus fornecimentos de Elgin e Waltham.
 
1920: O retorno dos suíços
Os suíços foram os primeiros a adotar os relógios de pulso, e depois da Primeira Guerra Mundial, eles fizeram significativas incursões no mercado dos Estados Unidos. Das companhias americanas, somente Elgin e Hamilton e a empresa que se tornaria a Timex fizeram a mudança para os relógios de pulso com sucesso. A Waltham aguardou, mas devido a um péssimo gerenciamento, eles falharam por não investir em novos equipamentos que eram necessários para se fabricar mecanismos menores. Das doze outras companhias americanas, algumas se uniram ou foram compradas, sendo mudadas para outros países e outras fecharam (faliram).
A torre do relógio da fábrica da Elgin
Depois da crise de 1929, relógios se tornaram ítens de luxo que a maioria da população deixou de comprar. Todas as companhias sofreram nessa época, e aquelas que não haviam mudado para os relógios de pulso não se recuperaram. Nos anos 1930, muitas companhias de relógios ao redor do mundo apenas sobreviviam.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as companhias americanas de relógios investiram o restante de seu capital em produtos para a guerra: "timers" para bombas, relógios especiais para navegação e cronógrafos para navios eram novos projetos que requeriam novos equipamentos. Os suíços, estando neutros, conseguiram entrar novamente no mercado americano de uma maneira notável e quando a guerra terminou, as companhias americanas estavam muito afetadas. Elas perderam uma grande parte do mercado local e não tinham participação no mercado externo, necessitavam tempo para se reorganizar e voltar a produzir relógios. O povo americano, por outro lado, tinha o dinheiro que não pôde gastar durante a guerra, e os suíços estavam ávidos por fornecer relógios para eles.
 
1950: Os suíços tomam a frente
Em meados de 1950, os suíços haviam aperfeiçoado máquinas para fabricar relógios complicados como cronógrafos, automáticos e relógios com calendários. Os americanos nunca produziram esses tipos de relógios (em números significativos'); eles não estavam obtendo lucros e estavam esgotando suas reservas. Nenhum deles estava em condições de fazer a transição de relógios simples para complicados, os quais tinham grande demanda nos anos de 1950 e 1960.
Movimento de um relógio Illinois
Assim como fizeram os ingleses, as companhias americanas reagiram ao crescente mercado suíço pressionando o Congresso a impor tarifas mais altas e restringir importações. Eles também tentaram conseguir mais contratos militares, mas nem mesmo a guerra da Coréia ajudou muito. A Elgin argumentava ao Congresso que "deveria haver uma paridade de preços" e "necessitavam tarifas sobre os relógios suíços e subsídios ao mercado de exportação." Vale dizer que a Elgin estava em situação muito melhor que a maioria.
A única companhia americana de relógios que sobreviveu foi a Timex, que fabricava relógios baratos e "descartáveis". Mesmo sendo mal vistos pela elite de fabricantes, pelo menos estavam tendo lucros. Por fazer relógios "descartáveis", a Timex era capaz de fazer coisas diferentes, como "selar" completamente as caixas dos relógios. Isso queria dizer que não poderiam ser abertos para serem consertados, mas também não entrava sujeira. Os Timex não usavam rubis, o que significava que depois de um tempo haveria um desgaste, mas com isto eram mesmo mais resistentes: enquanto uma batida forte poderia quebrar os rubis de um relógio caro, um Timex poderia "tomar uma surra, mas continuar marcando" ("take a licking, and keep on ticking!).
A outra companhia americana digna de nota foi a Bulova, que até os anos 1950 importava seus mecanismos da Suíça. Nos anos 1960, eles criaram o revolucionário relógio eletrônico "Accutron". Esse relógio usava um diapasão ao invés de uma roda de balanço; o resultado era uma precisão incrível. O Accutron se tornou um relógio de alta qualidade desde o início dos anos 1960 até os anos 1970, quando o quartz tomou o seu lugar.
 
1970: A era do Quartzo
Nos anos 1970, os suíços tomaram outro "choque", quando os japoneses aperfeiçoaram o relógio a quartzo, mas assim como no choque do "Sistema de Manufatura Americano", eles se adaptaram e se recuperaram.
Hoje, ainda se pode comprar relógios com os importantes nomes americanos Waltham, Elgin e Hamilton, mas nenhum desses relógios é feito nos EUA. Muitas companhias compraram os direitos de usar esses nomes e muito pouca atenção é dedicada à sua qualidade. Eles provavelmente não são piores que muitas outras marcas que se encontram no mercado, mas nada têm a ver com o grandioso passado…
 
Traduzido por Wilson Gomes de Oliveira (wilsongomess@yahoo.com), sob permissão do Senhor Wayne (http://elginwatches.org/history/index.html).
Texto dedicado à Família Rolla de Paineiras - MG, da qual faço parte... com muito orgulho! Somos descendentes de João Rola (João Ferreira de Oliveira).
Revisado por César Rovel
Maio 2006
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